Campo de Refugiados


Campo de Refugiados por Sebastião Salgado

Campo de refugiados

Escrito por Talibã vivo às 16h19
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Poesia Símbolo

Guardar
Antônio Cícero

Guardar uma coisa

não é escondê-la

ou trancá-la. Em cofre não se guarda

coisa alguma

Em cofre perde-se

a coisa à vista

 

Guardar uma coisa é

olhá-la, fitá-la, mirá-la

por admirá-la, isto é,

iluminá-la ou ser por ela iluminado

 

Guardar uma coisa é

vigiá-la, isto é,

fazer vigília por ela, isto é, velar por ela,

isto é, estar acordado

por ela, isto é,

estar por ela ou ser por ela.

 

Por isso melhor se guarda

o vôo de um pássaro

Do que pássaros sem vôos.

Por isso se escreve,

por isso se diz,

por isso se publica,

por isso se declara

e declama um poema:

Para guardá-lo:

Para que ele,

por sua vez,

guarde o que guarda:

Guarde o que quer

que guarda um poema:

Por isso o lance do poema:

Por guardar-se o que quer guardar.



Escrito por Talibã vivo às 11h36
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NOTA DE ABERTURA

Não é fácil escolher o primeiro assunto a ser descorrido em um bloq, mas não posso furgir de minha "obrigação" de explicar o porquê deste título. A teoria antropológica dos "não-lugares" está no centro de minha vida acadêmica como cientista social. Meu fascínio por esta teoria é intermitente, pois desde que percebi, a partir dos ensinamentos do mestre Ubiracy de Souza Braga e das leituras de Marc Augé, que a natureza e a forma como praticamos os lugares é uma das principais razões para a "cratera" que se abre entre as pessoas em espaços de rápida circulação ou em espaços de consumo, gerando, consequentemente solidão. Minha dúvida, desde meu primeiro contato com estas idéias, foi sobre a natureza do lugar - internet. Há muito tempo venho me questionando se a internet (salas de bate-papo, sites em geral, bloq's etc) não são não-lugares. Dando uma pincelada inicial pego carona numa afirmação de Emir Sader: o não-lugar é um lugar inespecífico "não define onde estamos, de alguma maneira nem quem somos." A internet gera isso? O espaço da internet permiti a construção de identidade e de relações que não sejam fugidias, sem vínculos maiores?
Muitas questões podem ser levantadas, acredito que mais teoria e mais exemplos nos embasaram mais para este debate, mas este é apenas o texto de abertura deste bloq, posteriormente entro de cabeça no assunto. Os campos de refugiados são "não-lugares" clássicos, pois as pessoas alí estão provisioriamente instalados, fungindo de alguma catástrofe natural ou gerada por guerras, conflitos. É esta a razão para a escolha deste título para este bloq, mas contraditoriamente pensei também na idéia de refúgio para idéias. Refúgio aqui num sentindo mais de proteção, no sentindo de guardar. Guardar no sentindo do poeta Antônio Cìcero.
Enfim espero obter nesta "prática de campo" muitos questionamentos e que a "própria internet" (seus usuários) ajude-me a achar algumas hipóteses.



Escrito por Talibã vivo às 11h30
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